Gerando Amor

Grupo de Estudos e Apoio a Adoção de São Bento do Sul/SC

CAPA

Emocionados, artistas falam de amor.
Público lotou as dependências da Sociedade Bandeirantes, ontem, no
show Semeador 6 - Gerando Amor

São Bento do Sul - Em diferentes formas artísticas, uma noite dedicada ao “Amor”. Das encenações aos depoimentos, passando pela música instrumental, coro, vocal, declamação, enfim, foi a palavra mais pronunciada no projeto O Semeador 6. Quem assistiu ao show, ontem à noite, na Sociedade Bandeirantes, se emocionou junto com artistas da
região em mais de uma hora de espetáculo.
O projeto apoiado pela Lei de Incentivo à Cultura e que este ano beneficia o Grupo de Apoio à Adoção “Gerando Amor”, trouxe um público de mais de 700 pessoas, entre artistas, público local, imprensa e outros convidados. Dos 600 ingressos colocados à venda, apenas “uns 20″ sobraram para a venda na portaria, garante o presidente do grupo, Valdeci Ropelato. “Dia 25 é o Dia Nacional da Adoção, por isso o evento acontece em maio. Em todas as regiões os grupos fazem alguma coisa. Nós trouxemos o show”, comenta.
Na ordem das apresentações, O Semeador 6 foi aberto com uma encenação de crianças do Grupo Gerando Amor, enquanto Donald Malschitzky declamava o poema “Breve História de Acordar”. Antes o público acompanhou uma apresentação de slides com imagens da edição do ano passado, que tratou sobre a água, e assistiu a um vídeo institucional de cinco minutos sobre o Gerando Amor.
Foram poucos discursos. Apenas na abertura oficial Valdeci e a vice-presidente, Elenice, leram um agradecimento no qual citaram a parceria com os idealizadores do projeto Donald Malschitzky e Ivana Lampe, os patrocinadores, imprensa e outros, com uma homenagem especial à assistente social Isabel Bittencourt que foi convidada a subir ao palco. “Desejamos a todos que vieram assistir ao O Semeador Gerando Amor um ótimo espetáculo”, foram as últimas palavras.

Emoção
Passava das 19 horas quando o público já ensaiava uma pequena fila em frente ao Bandeirantes. Os portões foram abertos às 19h30 para as boas-vindas às 20h10. A partir daí o evento foi intercalado por músicas e encenações. Na apresentação, a cantora Ivana Lampe anunciou “Amor de Índio”, de Beto Guedes, interpretada por Reinaldo Voltolini. “Este é um momento especial onde convidamos os primeiros artistas que aceitaram o desafio de fazer o show”, explicou Ivana.
Numa nova encenação, uma criança também falou do propósito do evento, que coincide com o Dia Nacional da Adoção, dia 25, próxima segunda-feira. “As vezes ponho-me a pensar. Se nao tivesse um lar onde estaria, o que seria de mim?”, contou um menino. “Cada dia que passava eu pensava em ter uma família. Quando conheci meus pais e meu irmão, comecei a chorar”, foi o depoimento de uma adolescente, adotada aos 9 anos e agora com 14 anos. “Quando ficar adulta, quero adotar uma criança maior. Quando estava no abrigo, eu via os bebês serem adotados e os maiores não”, criticou.
Um dos momentos de maior emoção ficou reservado para o final, com o trio Paulo, Meriéle e Viènne, que interpretou “Canção Gerando Amor”. A música foi composta especialmente para o evento e trata da importância da adoção e do amor entre pais e filhos. Após a interpretação, abraçados, o trio se despediu ovacionado pelo público.
Outros artistas que subiram no palco foram o violonista Rainer Mafra, com a música “Those Who wait” (de Tommmy Emmanuel), a dupla Jean e Juli, com “Chan Chan” (Francisco Repilato), o bandoleonista Márcio Brosowsky e o violonista Silvio da Cruz, com “El Choclo”, a cantora Ivana Lampe, com “Solamente una vez”, o grupo A4, com “Over the Raimbow”, Rafael Buchmann, com “Essência de Deus” (de João Alexandre), Mauro Adada, com “Você e a Lua”, e Vitor Buchmann, com “Se o amor se vai” (de Roberto Carlos).
Entre os declamadores, a professora Luciane Berkenbrock interpretou “Por que não posso sorrir?”, de Samuel Bianeck, que é de Balneário Camboriú. Os atores do grupo teatral Panacéia, Rafael Rodrigues, Robson Rodrigues, Alessandra Nascimento e Rafael Padawan, ainda trouxeram outros poemas, alguns de autores catarinenses. (KO)

 

Kalil de Oliveira
Jornal A GAZETA
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A família do Fernando esteve presente no SEMEADOR


A verdadeira paternidade e maternidade nasce do desejo de amar e de ser amado. Fundamenta-se na firme decisão em transformar uma criança em filho. E isso independe da origem da filiação, se biológica ou por adoção. O amor entre pais e filhos transcende a consangüinidade e se solidifica no dia-a-dia da convivência familiar, no entrelaçamento dos afetos e dos sonhos. É nesse sentido que cabe dizer que todos os filhos precisam ser adotados por seus pais no cotidiano de suas vidas

Movidos por este desejo de ser pai e de ser mãe e pela crença na adoção enquanto um caminho para concretizar este desejo, um jovem casal me procurou no Fórum em março de 2005. Já tinham começado a participar do Grupo Gerando Amor e queriam ter um filho, pouco importando a idade, o sexo, a cor ou a condição de saúde da criança.

Cerca de dois meses depois da habilitação para a adoção, eles conheceram sua primeira filha, Camila. Ela tinha um ano e dois meses, sofria de uma doença grave (miocardiopatia dilatada) e o encontro aconteceu na UTI do hospital de Itajaí, onde estava internada. “Foi amor à primeira vista”, dizem eles. Apesar de alertados pelos médicos sobre a situação de saúde da criança, estavam decididos: ela era a filha que desejavam.

A adoção de Camila trouxe muita alegria para toda a família. Ela surpreendia a cada dia com sorrisos, expressões, pequenos progressos e era extremamente afetuosa… parecia querer aproveitar ao máximo o amor e o afeto daqueles pais, feito anjos nesta terra. Ela partiu depois de 35 dias com a nova família, tempo suficiente para experimentar o quanto é bom ter uma família, ser amada, ser para sempre filha no coração de seus pais, seus verdadeiros pais. Fui testemunha da dor vivida por estes pais, pela família e amigos com a morte de Camila. Fui testemunha também do amor infinito, incondicional e gratuito com que se dedicaram à pequena Camila, transformando-a em filha amada. O processo de adoção ainda estava em andamento, mas eles fizeram questão de dar continuidade para assegurar através do ato jurídico o que pelo afeto já era realidade.

Meses depois, Fernando e Lílian me procuraram porque queriam se cadastrar novamente para adoção. Num primeiro momento, fiquei preocupada por ser ainda muito recente a perda de Camila. Mas durante a entrevista, pude perceber que eles tinham clareza de que um segundo filho não viria para ocupar o lugar de Camila em seus corações, pois um filho não substitui o outro. Queriam ser pais novamente, de um outro filho, com outra história, com o seu próprio lugar, pois tinham muito amor para partilhar e sabiam que tinham outras crianças precisando de uma família. Assim como da primeira vez, não fizeram exigências quanto ao perfil da criança.

Não demorou muito e chegou a segunda filha do casal, Maria Eduarda, com um ano e cinco meses. Ela é uma menina linda, meiga e trouxe muita alegria para os seus pais e para toda a família. Eles foram chamados para a adoção na Comarca de São José e conheceram a filha no abrigo daquela cidade, onde viveu desde recém-nascida. Tinha sido preterida por outros casais em função de sua cor. No seu histórico constava que ela tinha saúde frágil e vivia doente. Mas, para surpresa de todos, tem boa saúde desde que chegou. Também desta vez, pude testemunhar a alegria, o brilho nos olhos e o coração aberto com que receberam Maria Eduarda. A adaptação foi fácil, pois ela sempre teve muito carinho e atenção, sendo amada e desejada pelos seus pais. Quanto ao preconceito racial, ainda presente em nossa sociedade, eles tiram de letra. Demonstram segurança, orgulho e felicidade em serem pais de Maria Eduarda. Quando alguém pergunta “quem é essa menina”, eles respondem “é nossa Filha” com a maior naturalidade, com a mesma naturalidade com que conversam com a filha sobre a sua história de adoção e sobre a sua irmã Camila. A participação no Grupo Gerando Amor tem feito parte da vida da família e é para todos nós um momento de encontro.

Eles vivem o amor mais intenso que um pai e uma mãe podem sentir por um filho. É isso que a adoção nos ensina, é isso que Fernando e Lílian e tantos outros pais e mães nos ensinam: que é possível ser pai e mãe sem ser o genitor, que isso não apaga a importância da origem e que é preciso mudar o olhar da sociedade. Todos os filhos, genéticos ou por adoção, precisam ser verdadeiramente reconhecidos, aceitos e amados na condição de filhos. É o amor, e só o amor, que transforma um homem em pai e uma mulher em mãe.

Depoimento: Isabel Fuck Bittencourt
assistente social do Fórum e membro do Grupo Gerando Amor
(Matéria publicada como Destaque no Jornal Evolução de São Bento do Sul - Caderno do Schopping Zipperer, no dia 09 de agosto de 2008)
Foto: STUDIO MARLIZA